15/05/06

Velhice

No espaço de uma semana, ouvi falar de dois casos de idosos que adoeceram gravemente em casa. Viviam ambos sozinhos e, ao que parece, ninguém deu pela falta deles durante alguns dias. Um já estava morto quando o encontraram. O outro foi para o hospital depois de uma complicada operação por parte dos bombeiros para entrar por uma janela alta. Fiquei a pensar no assunto. Que espécie de filhos e netos somos nós? Que mundo é este que bate recordes de SMS nas passagens de ano mas não comunica com os seus velhos? Que ciência é esta que se orgulha de aumentar todos os dias a esperança média de vida sem que haja condições para que ela termine com dignidade? O que são as rugas, as falhas de memória, as limitações físicas, as baixas reformas ao pé da angústia de adoecer ou morrer na mais completa solidão?

12/05/06

Ele

Ele tem 64 anos e foi acusado de violação de uma seropositiva. Ele foi a tribunal mas acabou absolvido. Ele afirma que ela "estava mesmo a pedi-las" porque se dirigiu a sua casa envergando uma saia. Ele sabia que ela era seropositiva mas tomou um duche a seguir ao acto sexual para "eliminar os riscos de infecção". Ele é Jacob Zuma, ex-vice-presidente da África do Sul, um dos países do mundo com mais infectados com o vírus da SIDA.
Ele existe ou é fruto da nossa imaginação?

11/05/06

Não será exagero?

Manuel Maria Carrilho diz que foi vítima da mais brutal campanha negativa feita no Portugal democrático. Que barbaridade.

Futebol nos jornais

Com o final da Liga (ou seja dos jogos propriamente ditos) chega a silly season do futebol. As secções do Desporto dos jornais ficam numa aflição de fazer dó. Sem declarações bombásticas de treinadores, sem lesões de última hora, sem árbitros acusados de tudo e mais alguma coisa e sem castigos sumaríssimos, resta a dança das cadeiras dos treinadores. Quem é que já assinou, quem é que vai assinar, quem vem, quem fica, quem não tem clube, quem não tem técnico. Em ano de Mundial, os jornais aliviam um bocado a pressão de noticiar o diz que disse e concentram-se em todas as palavrinhas que saem da boca de Scolari. Até as bandeiras chegarem às janelas, vai ser só disto: especulações sobre contratações de treinadores e bocas polémicas do nosso seleccionador. As outras modalidades que se aguentem à bronca. Ainda não chegaram os seus 15 minutos de fama.

10/05/06

Vingança

A chegada de brasileiros a Vila de Rei está a aterrorizar os nacionalistas. Imagine-se que o Partido Nacional Renovador prevê que, numa análise de fazer inveja ao tarólogo mais sofisticado, "algumas regiões do país serão completamente controladas por imigrantes que até podem reclamar a independência"(in Diário de Notícias). Pois. Vê-se logo que estas duas famílias brasileiras vieram para cá com o plano ultra-secreto de vingar a viagem de Pedro Álvares Cabral. Estes xenófobos são uns visionários.

09/05/06

Dr. Phil

Gosto da SIC Mulher. Tem uma grelha light mas bem humorada e pormenores simpáticos como os videoclips nos intervalos da programação. Não tem novelas nem tem o José Castelo Branco e isso, nos dias que correm, é muito bom. A única coisa que me faz mudar de canal é um talk show chamado "Dr.Phil". Acho aberrante aquele homem enorme de olhos pequeninos e sorriso trocista, que tem a mania que sabe tudo em matéria de relacionamentos. Parece que é psicólogo mas gosta de trabalhar com assistência, contrariando aquilo que nós pensamos que deve ser o comportamento de um profissional desta área. Senta os pacientes no palco, pergunta o que lhe apetece sem se preocupar com a dignidade deles, lança blocos de imagens das vítimas a discutirem com os maridos ou a beberam às escondidas, faz piadas com as desgraças dos outros e até já se deu ao luxo de levar a mulher ao estúdio para mostrar a toda a gente o que é um casamento perfeito. Consta que foi considerado uma das dez pessoas mais fascinantes do mundo. Eu punha o Dr. Phil mas era no ranking dos mais imbecis da televisão.

08/05/06

Solidariedade

Este fim de semana, o Banco Alimentar Contra a Fome recolheu 1.135 toneladas de géneros alimentícios em superfícies comerciais, um aumento de 130 toneladas em relação a 2005. Não me surpreendeu porque o número tem vindo a crescer todos os anos mas deixou-me feliz por perceber que a crise não serve de desculpa para não oferecer um litro de leite ou uma lata de atum a quem precisa. Os portugueses que alinham nesta iniciativa só podem ser gente boa e os responsáveis pela campanha, gente inteligente. Recolher alimentos num supermercado e receber excedentes de produção dos sectores agrícolas e industriais são ideias simples mas eficazes. Funcionam quando postas em prática e, ainda por cima, têm um objectivo nobre. Nestas alturas, é que me apetece colocar a bandeira na janela e cantar o hino. Sem precisar dos golos do Cristiano Ronaldo para nada.

07/05/06

Mães

É domingo, o sol brilha, a temperatura está amena e as mães de todo o país têm as jarras cheias de flores. Parece tudo perfeito e tranquilo. Tudo não. "Seis secretários de Estado do Governo socialista omitiram nas declarações entregues no Tribunal Constitucional o valor do rendimento anual obtido em 2005 (in Correio da Manhã)". Aposto que hoje há para aí meia-dúzia de mães que estão a perguntar-se a si próprias porque é que não conseguiram ensinar aos seus rebentos que é muito feio mentir.

04/05/06

Passadeiras

Andar a pé em Lisboa não é para todos. Qualquer dia, torna-se mesmo um desporto radical, impróprio para cardíacos e corpos pouco ginasticados. É preciso ter estaleca para saber contornar os cócós da calçada, curvar com agilidade e elegância os transeuntes que só andam em linha recta, não cruzar jamais o olhar com os vendedores de seguros cheios de acne e de mau aspecto, escapar às escamosas cuspidelas do alheio, ziguezaguear por entre os carros em quatro piscas permanentes e por aí fora. Isto nos passeios.
E quanto às passadeiras, domínio que se quer absoluto do peão?
Fiquei a saber hoje que alguns (muitos) semáforos de Lisboa não respeitam a lei que determina que um peão deve atravessar uma passadeira de 9 metros em 22,5 segundos. Há sítios onde é preciso atingir os 15 metros em 14 segundos para não levar com um carro em cima. De repente, pensei nos velhos e nas pessoas com dificuldades de locomoção. Mesmo 9 metros para 22,5 segundos é manifestamente pouco para eles. É um perigo. Um suicídio aprovado por decreto.

03/05/06

Sonho Com Uma Noite de Verão

Se há altura do ano que me irrita é esta. A da Primavera. Estes meses de Abril e Maio. Não são carne nem são peixe. Em bom rigor, tudo o que se situa nesta indefinição, neste frágil equilíbrio de forças, tira-me do sério. Já com o Outono é a mesma coisa. Aquele friozinho quase cortante, o céu cinzento, a chuva dos tolos. Agora, são as flores que estão bonitas, o céu que está azul, o calor que aperta mas só quando o Sol está alto. Enerva-me. Prefiro o gelo assumido dos dias de Inverno ou a sufocante canícula do Verão. Ao menos, sei exactamente com o que conto. Acordo de manhã a pensar qual a combinação mais perfeita do cachecol com as luvas ou da camisolinha de alças com a chinela. Não ando a bufar o dia inteiro a pensar que "afinal, está frio" ou "que calor, não devia ter trazido este casaco". Para mim, duas estações por ano eram mais do que suficientes. E se chegassem a horas com temperaturas a condizer, nas datas certas, tanto melhor. Gosto de alguma ordem e disciplina nestas coisas do tempo.

Cinco Milhões e Meio

Mais de cinco milhões e meio de crianças morrem todos os anos de subnutrição, conclui o relatório da UNICEF "Progress for Children: a Report Card on Nutrition", divulgado esta terça-feira. Mais de metade destas crianças habitam em apenas três países: Bangladesh, Índia e Paquistão. (in TSF online).
Se estes países se situassem no Médio Oriente, as altas taxas de mortalidade infantil serviriam de pretexto para uma guerra preventiva por parte dos EUA?

01/05/06

Infinito Particular

Acabei de colocar esta rapariga a soar no meu iPod e gostei.

Prova de vida

Freitas do Amaral diz que está satisfeito com "alguns êxitos" que obteve no exercício das suas funções e que não se considera "politicamente morto". À falta de uma pancadinha nas costas que sabe sempre bem, o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros chega-se à frente e toca de tirar um auto-elogio da cartola. Depois, lembra a todos da sua existência. Está certo. A fazer fé na velha máxima da recauchutada Lili Caneças que diz que "estar vivo é o contrário de estar morto", ele só pode estar vivo. Freitas do Amaral ainda mexe e arrisca-se a bater todos os recordes em matéria de tiradas brilhantes. Não é para todos.

29/04/06

Flatulência


«Uma pessoa nunca deve assumir um peido em público. Quem o diz é a lei não escrita, a lei que decorre dos costumes. Trata-se da única regra verdadeiramente sagrada da etiqueta americana. Os peidos não têm origem em ninguém nem vêm de sítio nenhum; são emanações anónimas que pertencem ao grupo como um todo, e, mesmo quando todas as pessoas na sala sabem quem foi o culpado, a única atitude saudável é negar terminantemente».
"As Loucuras de Brooklyn", Paul Auster

28/04/06

Ser chefe

«Ser chefe, é antes de tudo, apreender as necessidades de um grupo humano relativamente à missão que têm a realizar; é coordenar os esforços de todos no mesmo sentido; é comunicar a todos a esperança de vencer e fazer com que todos partilhem da alegria de ter vencido (...) Proibir ou inibir não é o caminho mais certo para retirar o que de melhor têm os homens. É antes uma demonstração de forças que só revela a incapacidade de um chefe para motivar a sua equipa sem recorrer ao poder que detém (...) O chefe não é um domador que subjuga; nem um orgulhoso que humilha. É um servidor cuja forma de serviço é assumir a sua parte de responsabilidade e ajudar os outros a assumir a sua (...) A virtude principal dum chefe, e talvez a mais rara, é a humildade. Se os nossos chefes não estão disso profundamente convencidos, se não sabem captar as lições autênticas que lhes vêm dos homens e das coisas, se persistem nas suas opiniões a ponto de não querer escutar ninguém, depressa ficarão vazios e ultrapassados.»

Proletários de todo o mundo, uni-vos para exigir chefes que o saibam ser com inteligência.

(Nota: o texto entre aspas é uma compilação de frases cujos autores eu desconheço mas subscrevo na íntegra).

27/04/06

Montra virtual

Aqui há uns dias, resolvi ir espreitar uma coisa chamada Hi5. Parece que se tornou moda entre os adolescentes, sempre mais permeáveis a estas modernices. Registei-me neste “convívio virtual” ou “serviço online de amizades” ou lá o que é e aí fui eu com uma pontinha de curiosidade, outra de desconfiança. Andei para cá e para lá, abri várias páginas, dei uma olhadela aqui e ali e pronto. Saí, retirei o meu registo e não volto à carga. Confirmei as minhas desconfianças todas. Trata-se sem dúvida de um produto destinado aos sub 18, o que é muito compreensível. A miudagem está em idade de fazer e desfazer amizades como quem troca de camisa. É saudável e faz parte do crescimento. Acho é estranho haver tantos adultos por lá com padrões de comportamento semelhantes. As páginas das mulheres despertaram-me uma curiosidade especial. A ideia com que fiquei é que parece implícita uma competição do género “Miss Hi5” onde as concorrentes aparecem dispostas em catálogos, em busca da amizade mais "desinteressada". Descarregam as suas fotos – às dezenas – em poses estudadas ao pormenor e décors a condizer. Há de tudo: na praia em bikini, na esplanada com óculos escuros, na neve com os skis, em cafés com os amigos, em casa com os cães, sérias, com ar grave, contentes, eufóricas, com a língua de fora, a fazer boquinhas sexys, com a mão na anca, de copo na mão, morenas, louras, com madeixas ou nuances. Um paraíso para qualquer gajo. É só ter olho e alguma criatividade para deixar um comentário a preceito. De preferência, com alguma alusão a um atributo físico. Elas não estão lá para outra coisa.

26/04/06

Promiscuidades

"George W. Bush anunciou hoje que Tony Snow, jornalista do canal Fox, será o novo porta-voz da Casa Branca" (in Público). Este profissional da comunicação social, que em tempos redigiu os discursos do pai Bush, regressa agora à cena política para dar uma mão ao júnior que está em trabalhos com uma popularidade a cair a pique. Entre uma administração e outra, Tony podia ter optado pela prática do golfe ou por fazer mergulho nas Maldivas mas não: andou entretido a fazer jornalismo até aparecer alguma coisita melhor. Qualquer semelhança entre ele e Fernando Lima (ex-assessor de Cavaco Silva na versão Primeiro-Ministro, ex-director do "Diário de Notícias" e actual assessor de Cavaco Silva na versão Presidente da República) só pode ser mera coincidência. Ou não. Depende da perspectiva e da quantidade de algarismos do cheque do ordenado.

25/04/06

Morangos sobredotados

Inês Simões e Luís Lourenço fazem parte do elenco de "Morangos Com Açúcar". São dois jovens fresquinhos, giros e com um ar simpático e limpo. Se tiverem juízo, inteligência, capacidade de trabalho e talento podem, um dia, tornar-se actores porque, na verdade, ainda não o são. Toda a gente sabe que, salvo algumas excepções ao nível do elenco sénior, as estrelas desta série juvenil são recrutadas em agências de modelos e castings mediáticos onde se deixa foto de rosto e de corpo inteiro. Não se exige formação nem experiência: só uma cara laroca e arruma-se o assunto. Pois bem, a Inês é modelo e foi a segunda classificada num concurso de beleza. O Luís participou em anúncios publicitários. Não consta que algum deles tenha estudado para o ofício, ambos são estreantes e andam pela casa dos vinte anos. Hoje, descobri que os dois estão a dar formação num workshop sobre técnicas de interpretação. A ideia é seleccionar miúdos para frequentar uma escola de actores a inaugurar em Braga. Se calhar sou eu mas acho isto tudo um bocado estranho. Como é que se ensina alguma coisa sem ter aprendido quase nada?

23/04/06

Ipod Nano

Já andava desconfiada de que ia gostar dele. O aspecto agradou-me logo: branco, linhas direitas, fininho, simples, sem luzinhas a piscar nem botões supérfulos. De uma elegância só. Agora, que descobri o que está para além da aparência e ouço pela primeira vez "Mar Nha Confidente" de Cesária Évora neste curioso objecto pouco mais grosso do que um cartão multibanco percebo tudo: as pessoas deviam ser todas como o Ipod Nano. Bonitas por fora e competentes por dentro.